“Casas de câmbio não aguentam mais 15 dias”, diz associação de classe

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Fronteiras fechadas, milhares mortos e aeroportos vazios. O cenário, digno de um pesadelo, tem tirado o sono das mais de 30 mil pessoas que vivem da venda e compra de moedas estrangeiras no Brasil. De portas fechadas e sem perspectiva de quando as viagens irão se normalizar, corretoras e casas de câmbio atravessam uma crise sem precedentes

Em março, quando as medidas para conter a proliferação do coronavírus se enrijeceram, o volume de negociação do dólar turismo despencou 95%, de acordo com dados preliminares da Associação Brasileira de Câmbio (Abracam). A queda nas operações de importação e exportação intermediadas por corretoras de câmbio deve ser da ordem de 35%. “O segmento não aguenta mais 15 dias parado”, afirmou Kelly Massaro, presidente executiva da Abracam.

Além da menor demanda, que tem afetado a grande maioria das empresas brasileiras, um agravante adiciona ainda mais incerteza ao futuro do setor: a impossibilidade de contrair empréstimos.

Para Massaro, o acesso a linhas de crédito é essencial para a sobrevivência das casas e corretoras de câmbio. “Por mais que o governo libere empréstimos, o Banco Central veta as corretoras de deter crédito de instituições financeiras.”

De acordo com ela, a Abracam vem trabalhando junto ao Banco Central e ao ministério da Economia para flexibilizar essa e algumas outras regras, como redução de alíquotas tributárias sobre operações de câmbio e maior prazo para renegociar eventuais dívidas. “O pilar de sustentação é a isonomia”, disse Massaro.

Um dos maiores players do mercado de câmbio turismo, o banco Daycoval está com mais de 150 lojas fechadas de um total de 180 e vê uma queda de faturamento como inevitável. “A gente vem mantendo os salários dos funcionários, mas não sabemos até quando”, disse Eduardo Campos, diretor de câmbio da Daycoval.

Campos conta que a dinâmica do mercado de varejo mudou completamente desde o surgimento do coronavírus. Do volume negociado pela Daycoval antes da crise, 90% era de venda e 10% de recompra. Com o cancelamento de viagens internacionais, a proporção se inverteu para 10% de venda e 90% de recompra. “A gente precisava importar moeda para atender o público do Brasil, agora a gente exporta.”

Como o valor pago pelos dólares recomprados é abaixo do custo de mercado, a Daycoval consegue repassar para seus clientes preços que chegam a ser de 1% a 2% inferiores ao do dólar comercial. “Em uma situação normal, o dólar turismo é sempre 2% a 3% mais caro que o comercial. Mas, com os clientes vendendo, caiu tanto o preço de compra quanto o de venda”, afirmou Campos.

A situação é ainda mais dramática nas empresas menores. A Ourominas, que possui 10 lojas próprias e 48 correspondentes, está com as operações de câmbio praticamente paradas. Com uma série de gastos fixos, como aluguel e, pelo menos, dois funcionários por estabelecimento, a empresa se prepara para tempos difíceis.

Antes mesmo do coronavírus, a venda de dólares na Ourominas já havia caído 40% em função da alta da moeda. “Mas estava caindo gradativamente. Ainda estava sustentável. Dava para segurar os empregos. Agora está complicado mesmo”, disse Mauriciano Cavalcante, diretor de câmbio da Ourominas.

Para tentar driblar a menor demanda por dólares, a empresa reforçou o sistema de entregas, mas tem sido insuficiente. “O movimento caiu 95%. Se não tiver nenhuma ajuda do governo, vamos ter que reduzir os salários dos funcionários e brigar com os proprietários [das lojas]”, afirmou Cavalcante.

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